Pular para o conteúdo principal

Adolescência

ADOLESCÊNCIA –  POR QUE NUNCA ENTENDO O QUE VOCÊ DIZ?

Reflexões sobre a comunicação entre pais e filhos.

As queixas mais comuns que aparecem no consultório são relacionadas à comunicação entre pais e filhos. Os adolescentes se queixam de não serem compreendidos. Essa é uma reclamação antiga; de geração a geração, ela vem ocorrendo porque os adolescentes se sentem em um momento muito particular da vida, o que é verdade, e os pais dão a impressão de que, quando adultos, esquecem como foi a fase da adolescência, o que, também, é verdade. Então não conseguem compreender os filhos, ficam irritados, exigindo deles mais do que podem dar. A comunicação fica truncada. Os parâmetros dos pais não são os mesmos usados pelos filhos.

Isso causa muitos conflitos e um deles está relacionado ao desempenho escolar, basicamente às notas. Uma boa parte dos adolescentes chega a essa fase muito desanimado com o modelo escolar. A gente tem que reconhecer que a maioria das escolas, realmente, não está atendendo às necessidades dos jovens. Elas transmitem conhecimento de forma antiquada, sem criatividade, visando apenas o vestibular, visando o futuro, um futuro que parece muito longe e indefinido para eles. O jovem, assim como nós todos, precisa viver o instante presente, sentir que está adquirindo um conhecimento para agora, algo útil, no qual possa ver o sentido. A vida do adolescente, muitas vezes, se torna bastante entediante, e eles buscam emoções avidamente.

O que eu percebo, também, é que alguns, não todos, acabam mentindo para os pais a fim de conseguir um tempinho livre, a fim de se divertir sem ser perturbado. Isso é preocupante porque, quando eles começam a se habituar com a mentira, normalmente, esse hábito leva a outros comportamentos mais graves, como omitir onde estão, ou o que estão fazendo. Isso não é nada bom, se pensarmos que os pais estão trabalhando, ocupados com os seus afazeres, e, muitas vezes, não têm aquele tempo para acompanhar os filhos de forma tão próxima.

O pais, quando se veem nessa situação, podem se tornar perseguidores de seus filhos, no sentido de tentar aumentar o controle, acompanhando com a escola todos os movimentos do adolescente, por meio eletrônico, controle de entrada e saída, relatórios minuciosos emitidos pelo colégio sobre o comportamento do filho, etc. Ou seja, a pressão aumenta, pois os pais acreditam que esse controle ajudará, mas só fica pior. Aí é que os filhos se sentem motivados a inventar novas forma de escapar dessa situação. É sofrido para o adolescente e para os pais também.

Na maioria das vezes, esse é comportamento que se destaca no adolescente médio, aquele que estuda mais ou menos, que quer ter uma vida mais divertida, quer ir a shows, jogar videogame e coisas do gênero. Há, também, aquele adolescente que estuda bastante, que se empenha e busca a aprovação dos pais por meio de um comportamento mais impecável, vamos dizer assim. Esse adolescente, a gente também tem que olhar com atenção, pois o nível de ansiedade não deixa de ser alto, uma vez que eles buscam dessa forma a aprovação dos pais e acabam reprimindo sentimentos e comportamentos em troca de aceitação, de serem bons filhos e não provocarem problemas. O que acontece? Lá na frente, quando estiverem adultos provavelmente sentirão o peso dessa vida tão reprimida. Também não é bom.

Então, qual é o comportamento saudável do adolescente? Os pais podem perguntar: o que é saudável para o meu filho? Como devo agir? O adolescente saudável é aquele que estuda um pouco, que tem os seus interesses mas, também, tem as suas dúvidas, é curioso. Não vai falar tudo para os pais, porque os pais NÃO SÃO seus amigos. Os pais são PAIS. E os pais precisam se conformar com isso. Um pai não tem que ser o melhor amigo dos filhos. O melhor amigo tem que ter a mesma idade, tem que ter os mesmos sentimentos, porque, quando nós ficamos adultos, esquecemos como é ser adolescente. Então, realmente, não podemos ser amigos dos nossos filhos. Esse é um fato a ser aceito pelos pais com muita tranquilidade, porque isso não significa que o pai está perdendo o seu filho; significa apenas que ele, o filho, quer uma privacidade, precisa compartilhar algumas coisas apenas com seus amigos.

O que os pais devem fazer? O adolescente espera dos pais a firmeza, a serenidade. Espera dos pais a segurança, o limite, porque o adolescente precisa de limite, sim; isso o deixa seguro de que tem gente que se importa com ele. Um adolescente que é largado, que pode fazer o que quer, não tem horários, regras a seguir, obrigações em casa, tem a impressão de que tanto faz, de que ninguém se importa. Esse é um sentimento ruim, de abandono, e esse abandono vai fazer com que ele busque outras emoções e outras companhias.

Para que a família se mantenha saudável, a iniciativa tem que vir dos adultos. É importante respeitar esse momento da vida do ser humano, a adolescência, onde há muita dúvida e instabilidade. Um dia ele está feliz, saltitante, amando todo mundo; no outro, não quer falar com ninguém, que ódio profundo! É lógico que não é para todo mundo se mobilizar em torno dele e deixar que dê o tom do bem-estar da família. Não é isso. No dia em que estiver mal-humorado, o. k., vamos sinalizar de forma adequada, mostrar que não é legal ficar assim, mas que está sendo respeitado, desde que não atrapalhe o resto da família. Que fique lá, se acalme e recupere-se! Depois volte para o convívio. No dia em que estiver bem, feliz, muito bom, vamos conviver, vamos aproveitar, até elogiar.

O fato é que a vida tem que ser levada com o máximo de naturalidade possível, entendendo que aquela pessoa está crescendo, observando, aprendendo, e aprendendo principalmente com os exemplos, os exemplos dos adultos que o cercam. Isso é muito importante, e os adultos têm que estar conscientes de que não há como escapar disso. A melhor maneira de educar um filho é pelo exemplo. Não há como fugir. É fundamental ter paz, consciência do próprio papel, a cada dia, a todo momento, em qualquer situação, agindo de maneira assertiva e equilibrada.

Não há receita, mas a gente pode se ajudar, família, escola, psicólogos.



Leila de Sousa Aranha

Psicóloga clínica, Mestre em Psicopatologia e Saúde






REBOUÇAS, Thalita. Ela disse, ele disse. Rio de Janeiro: Rocco, 2010

ZAGURY, Tânia. O adolescente por ele mesmo. Rio de Janeiro: Editora Record,

Comentários